Falando sério

Não estou com muita vontade de ser engraçado, ou tentar, pelo menos. De verdade.

Como vocês devem ter percebido, não atualizei muito o Quengaral durante o Carnaval, e não foi por estar em Salvador, transando como um coelho e bebendo como o costume. Acabei tomando um susto danado.

Antes de ontem (segunda-feira), passei o dia na casa de uma das minhas tias paternas e ainda recebi um dos meus tios maternos mais beberrões. Me alimentei como um estegossauro, joguei sinuca e ainda tomei umas — um dia vivido em plenitude, eu diria.

Umas 23h, já em casa ouvindo Van Halen, meu peito começou a doer pra caralho. PRA CARALHO. E ainda por cima, meu braço esquerdo começou a formigar — para quem não sabe, sintomas típicos de um infarto agudo do miocárdio —, fazendo com que o meu irmãozinho, aquele imbecil, tivesse a conveniente ideia de que eu fosse ao hospital. Por azar, eu não tenho convênio médico e acabei tendo que ir ao maravilhoso Hospital Heliópolis — com um medo enorme de o hospital ser um passaporte  pro inferno.

Chegando lá, por sorte até consegui ser atendido por uma médica mais ou menos, que me receitou duas injeções, um tranquilizante cavalar e solicitou um eletrocardiograma. Por tudo isso, a doutora me disse que a chance de eu morrer subitamente era mínima, porém a minha pressão arterial estava vulcanicamente alta. Voltei e fui dormir, afinal, esse tipo de coisa serve como um sinal para levar a vida um pouquinho diferente.

No dia seguinte, continuava com uma dorzinha que, aliás, continua até hoje. Voltei ao Hospital Heliópolis em plena terça de Carnaval. Fui atendido por um brutamontes que, pasmem, me atendeu e mais umas dez pessoas em menos de cinco minutos. CINCO. MINUTOS! Olhou o eletrocardiograma porcamente, fez o exame de pressão mais rápido do mundo e me disse que TUDO ERA PSICOLÓGICO! Não chegou a assinar nem uma receita — até porque, caso acontecesse algo comigo, não havia provas de que o tal doutor foi negligente.

Logo depois, disse à minha mãe que gostaria de ir ao Hospital São Paulo, pois sempre fui razoavelmente bem tratado desde quando eu nasci, lá mesmo, e lá possivelmente teria um diagnóstico. Pois bem. Fui atendido por uma enfermeira deliciosa, que me curaria se me deixasse fodê-la, mas não foi o que aconteceu. Me disse que deveria passar no clínico geral e que demorariam mais ou menos umas duas horas para que eu fosse atendido.

Esperei quatro horas e nada.

Sinceramente, isto não é problema pra mim, pois conheço um pouco da realidade do meu país. Porém, nessas quatro horas, posso jurar que os clínicos não chamaram mais que dez pessoas. Calculando, cada consulta demoraria 48 minutos. Porém, dez minutos depois de serem chamadas, as pessoas já saiam do Hospital.

O que estes médicos filhos da puta estavam fazendo nesses 38 minutos? Tirando a ressaca do Carnaval? Cheirando? Fodendo? Não sei. Mas fazendo o que deveriam fazer, servir ao povo, isto não era.

Nessas quatro horas, conversei com a acompanhante de uma pessoa com um CÂNCER NA TRAQUEIA que estava esperando há dez horas!

CÂNCER NA TRAQUEIA – DEZ HORAS. Dá pra entender?

O local não tinha banheiro, então pedi para usar o banheiro do setor onde havia os consultórios —  quem estava aguardando a consulta, como eu, não tinha acesso. Dentro do banheiro, presenciei uma das piores cenas da minha vida.

Uma pessoa sendo alimentada, provavelmente por familiares, em um estado decrépito (não consigo descrever tudo pois seria muito deselegante ficar secando o velhinho), que comia com dificuldade, sentindo dor enquanto a comida chegava ao estômago, imagino. Por que este senhor estava DENTRO DO BANHEIRO? Pode-se supor que, apesar de ser um banheiro, era um lugar sossegado para uma pessoa destruída por uma doença. Assim como podemos supor que o Hospital não cedia espaço, muito menos comida, para um pobre indivíduo que contribui e se fodeu a vida inteira e não consegue ter um tratamento digno… ao menos, paliativo, que traga uma morte menos sofrível.

Um senhor esperava por uma cirurgia, que não faço ideia de como e onde seria. Esperava desde a meia-noite. Mais ou menos às 14h, uma das três filhas que o acompanhavam se exaltou e começou a chorar. Chegou a agredir um funcionário. O maior tumulto. Um policial, eficientíssimo por sinal, correu para acudir o funcionário e controlar a bagunça. Rapidamente, o senhor conseguiu entrar na sala de cirurgia.

Polícia é eficiente. Repreender pode. Agora, salvar a vida das pessoas…

Falando nisso, repreender é algo que nossos governantes adoram fazer. Esquecem o principal.

Lei antifumo, lei seca, lei cidade limpa. Pode até ser que sejam boas medidas.

Porém, enquanto isso, os hospitais ficam lotados de pessoas que, por serem pobres, são mal tratadas como cachorros de rua (que por sinal, são apreendidos e submetidos à vivissecção). Enquanto isso, pessoas sofrem com enchentes porque o Estado não tem competência para acomodar todos que contribuem com o seus cofres e se fodem com suas ações. Pessoas que não têm onde morar, sofrem com as chuvas de janeiro todos os anos, e são remanejadas como bois para locais ainda mais afastados sem condições de se manterem com o ridículo cheque-despejo dado pelo governo?

Muita coisa tem que ser mudada neste tal Estado, que a gloriosa esquerda festiva deste país tanto quer que nos domine. Esquerda festiva, como disse um tal Carlos Leonam, que fala bem de algo que não provou. Para defender um Estado, é interessante depender dele. E tenho certeza que a esquerda festiva, em sua maioria, não mora na periferia, não costuma ir a hospitais do SUS a não ser para brincar com crianças ou jogar damas com idosos à beira da morte e não trabalha para se manter, para sobreviver.

Outro dia, estava vendo uma faixa no Hospital Heliópolis, de autoria de seus funcionários, abominando a ‘privatização’ da sistema de saúde. Não tenho propriedade para dizer isso, não sou conhecedor ao ponto de julgar. Mas E SE essa tal terceirização (acho que é mais correto se dizer assim)  apertasse o forevis fizesse com que a estabilidade fosse revista e que os tais médicos não passassem 38 minutos no ócio e ajudassem as pessoas que pagam os seus salários?

Talvez não fosse melhor rever algo que perpetua classes mais altas em um funcionalismo carcomido por pessoas que não ligam para o contribuinte e só querem ganhar o seu salário no fim do mês?

Quando estava fazendo aqueeeele eletrocardiograma, perguntei ao enfermeiro se havia muita gente sendo atendida no Hospital. Ele me respondeu que não, e, mesmo se houvesse, ele não ligava: o salário dele estaria depositado no começo do mês.

Então, se um pobre morre, para ele tanto faz? FODA-SE?

É complicado você ouvir isso de alguém que, na teoria, deveria fazer de tudo para te tratar bem. Lógico que não dá pra generalizar nada, mas um cara como esse merece uma estabilidade? Merece um lugar ao sol porque decorou umas coisas e passou num concurso?

Desde segunda-feira, a parte esquerda dói, formiga, se esvai. O pior é que muita coisa do ideal esquerdista que os dinossauros professores da PUC também acaba se tornando abstrata e festiva.  Engraçado, é como dizia o Tim Maia,

‘No Brasil, puta goza e pobre é de direita’

Mais contradição do que o que há nesta frase, só a incerteza que me invadiu nessa hipertensão cavalar. Às vezes, coisas insignificantes fazem com que a gente evolua mais que anos e anos de estudos.

Bom, vou dar uma maneirada no sal, na pimenta, na gordura e — acreditem — na cachaça. Afinal, espero não morrer tão cedo. E escrever quengarias pra sempre.

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4 Comentários

  1. 1- Se o Hospital for privatizado,provavelmente não vai atender ao SUS – e se o fizer,te garanto que não será da mesma maneira que atende à convênios particulares.
    2- A questão sobre o filho da puta não se importar em fazer um bom trabalho pois tem certeza que receberá seu salário no fim do mês é uma questão complexa pra caralho, e se estende pra todos os ramos do funcionarismo público. Acho que não é uma questão de direita ou esquerda, algo que o “dinamismo” do capitalismo resolveria. Honestamente ainda não cheguei a uma conclusão sobre oque faz uma pessoa ter caráter.
    3- A frase do seu amigo é do Tim Maia :”O Brasil é o único país do mundo onde puta goza ,
    cafetão sente ciúme , traficante é viciado e pobre é de direita!”

    Mas é bem apropriada. Parabens pelo blog.
    7metrosaesquerda.wordpress

    • Vou te chamar de Gui, ok?

      1 – Não chego a defender uma provatização do SUS. Acho que não tenho muita propriedade pra falar sobre isso, sinceramente. Quem tiver coisas a adicionar ao debate, melhor ainda.

      2 – Com certeza não. Assim como eu não me considero, sinceramente, de direita ou de esquerda. Caráter não tem lado, nem espectro político. Mas imagino que o funcionalismo da forma como temos deixa o funcionalismo faz com que pessoas de mau caráter se perpetuem em um posto.

      3 – Retificarei a frase. Não fazia a menor ideia de que tinha sido ele o autor. Obrigado. Seguirei o seu blog!

  2. […] Falando sério « Quengaral […]

  3. Existem TRILHÕES de problemas no funcionalismo público e acho que posso falar com propriedade, por experiência própria.
    Não sei se no ramo da saúde é igual ao que acontece na educação, mas o fato é que bons profissionais não tem infra-estrutura para trabalhar e os maus profissionais tem a tal da estabilidade – que é uma merda, pois você nunca vai subir de posição e, provavelmente, nem receber reajuste de salário. Ou seja, quem é bom arranja coisa melhor, quem é ruim, fica…
    Mas que o povo é acomodado nessa lambança, é!

    E quanto à saúde, sr. Driks… ai se eu o vir tomando uma breja, vc vai ver só… rs… brincadeira. Beijp


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