Dinâmicas idiotas de emprego…

Me chupem-me!

post abaixo me fez ter um assunto para escrever nesse feriado tão propício ao tédio: hoje o Quengaral vai fazer um perfil antropológico de um dos eventos mais nojentos da vida de qualquer desempregado – as fatídicas dinâmicas de emprego. Nessas ocasiões, dominadas pela falsidade e por um amor incondicional a empresas que nunca ouvimos falar, as pessoas falam as maiores besteiras de suas vidas só para alegrar profissionais de RH, que se acham psicólogos, mas são uns pamonhas.

Boa parte dos processos seletivos hoje são chatos exatamente por conta dessas dinâmicas filha das puta. Em vez de uma prova pela internet e uma entrevista com aquele que pode ser o seu chefe, você tem que passar por 28 tipos diferentes de dinâmicas idiotas, que sempre duram quatro horas – aproximadamente o meu período de sono todas as noites. Vamos passar por vários dos clichês dessa merda, do perfeccionismo aos candidatos que falam 17 línguas, e provar por A mais B o que todo mundo já sabe: essa porra não serve pra nada.

Na primeira das quatro-horas-que-parecem-meses, alguma assistente gostosinha distribui uma ficha. Além de informações comuns, como endereço e número de CPF, você tem que responder questões como ‘qual sua cor favorita’ e ‘quem é o seu ídolo’. O foda é que eu sou um cara que não sabe que cor prefere, ídolos, comida preferida e a puta que o pariu! E por que patavinas importa a minha comida favorita? E se eu gostar de mocotó e buchada, isso significa que ‘meu perfil não é o que eles procuram’?

E como o ser humano se adapta, não? Por mais que não tenhamos, sempre fazemos o possível para nos ‘adequar ao perfil exigido pela empresa’: a gostosinha estúpida que nem sabe se o Pelé é preto ou branco passa a amar esportes, o que entrou na faculdade pra trabalhar no Lance! se torna um expert em jardinaria, e o ateu gente-boa se converte pra trabalhar na assessoria de algum bispo ladrão. A receita é simples: ‘é uma empresa conceituada, onde eu posso crescer e contribuir com minhas qualidades’.

As dinâmicas sempre me trouxeram muita depressão. Eu ainda acho que ninguém que participa de dinâmicas é aprovado. Os candidatos e suas idiotices são apenas pretextos para animar a manhã do Eike Batista, com pérolas das mais ridículas, estimuladas pelos imbecis do setor de Recursos Humanos. Viciados em inovação e criatividade, esses paspalhos criam meios cada vez mais patéticos para que os pobres candidatos se apresentem: ‘se você fosse um x, o que você seria?’ você pode substituir ‘x’ por país, reino, bula de remédio, pacote de biscoito, apresentador de televisão, empresa e pica de gorila.

A gorda é a chefe; a gostosinha é a magra e vai embora no começo :~

Quer coisa mais clichê do que a tal apresentação? Nas dinâmicas de emprego, há pessoas preparadas; outras, nem tanto. Mas todas têm um defeito em comum: são perfeccionistas.

Outra coisa que é sempre irritante são as apresentações em grupo, em que a gorda do RH (a assistente só entrega as fichas e vai embora) propõe um projeto mirabolante – se possível, com alguma musiquinha babaca -, para que os examinadores verifiquem a capacidade de liderança de cada um. Nessa parte, metade vira líder e grita como se estivesse em um botequim; o mudinho começa a falar mais que o Datena e quem não tem nada melhor pra falar tem que se sentar no chão e fazer um cartaz, sujando a calça social caprichosamente engomada pela mãe na noite anterior.

Se tinha uma coisa que eu odiava na escolinha, sem dúvida, era na hora de desenhar e colorir. E essas dinâmicas modafocas me fazem remexer em um trauma que só cicatrizou quando eu tinha uns 11 anos. Pior, ainda me fazem usar um crachá, em que eu faço o possível pra caprichar na caligrafia do meu nome, sujo os dedos com aquelas canetas com cheiro de cachaça e ainda fica uma bosta!

A vaga é minha, pobre do caralho!

Outra coisa que me deprime: sempre tem uma mina da USP, normalmente bonitinha, que fala inglês, francês, alemão, chinês, búlgaro, coreano e língua brasileira de sinais, faz iniciação científica, trabalhou como correspondente da Globo em Tóquio, fez intercâmbio pra Albânia e tem 17 anos. Cara, machuca…

Bom, já deu pra ver o ódio que eu tenho por essas dinâmicas (que por sorte eu já não enfrento faz tempo!). Não consigo pensar em um final decente pro post, mas meu perfeccionismo é mais forte que tudo. Mentira, meu perfil é outro.

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10 Comentários

  1. Eu penso a mesma coisa e odeeeeio essas dinãmicas de grupo!
    Como sempre, abordando os assuntos de uma maneira engraçada mas q , no fundo, é verdade.. heuiaheiua
    Parabéens!

    bjooos

  2. Essa mexeu fundo nas minhas memórias da única dinamica pela qual eu passei. O pior são as minas da USP ao contrário: são uma porta, mas fazem de tudo pra aparecer. Ah, e na Eletrobras, a gente passa por uma ambientação que é tipo uma dinâmica pra aprovados. Pensa no pavor.

  3. Eu sou a pessoa que mais fez dinâmica que eu conheço, e é um horror geral, o final é verdade. Sempre aparece o candidato perdeito e que na verdade é o “professor aloprado”.
    E quanto a pessoas preparadas, existem milhares de portas que sequer falam português corretamente e com um senso de justição inquestionável…
    Eu sempre passei em todas as dinânicas que participei com exceção da Globo…não sei porque né ? rsrs
    Mas na Pirelli uma vez o entrevistador me perguntou: “O que você acha do seu projeto ?”
    Todos responderam que foi o melhor que deu pra fazer, que era bom, razoável ou qualquer coisa do gênero, no ápice do perfeccionismo.
    Eu mandei um “Ficou horrível, não atendeu o objetivo e francamente não achei a atividade produtiva…”
    E magicamente consegui a vaga, apesar de não tê-la aceito…ou seja, o negócio é ter cerébro, porque o resto qualquer macaco copia e de forma mediocremente invejável…

  4. Amigo, gostaria de lhe dar os parabéns por esse post. Saiba que eu não retiraria uma vírgula sequer de tudo o que você escreveu aí. Estou nessa luta contra essas “Dinâmicas de Grupo” faz mais de 10 anos. Até com parlamentares eu já conversei sobre o tema. Então, depois de muito papo e correspondências intermináveis, consegui convencer um Senador do Rio Grande do Sul, através da assessoria dele, a apresentar um Projeto de Lei no Senado. O referido projeto visa coibir essas práticas na seara empresarial do Brasil, através de alteração da Consolidação das Leis do Trabalho. Além disso, resta comprovada a flagrante inconstitucionalidade dessas dinâmicas, tendo em vista o caráter desumano e violador da privacidade, da intimidade e da honra das pessoas ( garantias constitucionais). Todavia, como brasileiro, você deve conhecer tão bem quanto eu os trâmites legislativos, ou melhor dizendo, as artimanhas políticas das quais fazem parte os nossos representantes no Congresso Nacional. Bem, resumindo, o tal projeto de lei começou a tramitar bem no Senado Federal, foi inclusive aprovado numa das comissões do próprio senado ( comissão de assuntos sociais ), mas, simplesmente passou a “patinar”, digamos assim, até desaparecer das pautas legislativas da casa. Soube que ocorre o seguinte: a maioria desses deputados e senadores tem participação societária em empresas com fins lucrativos. Tais empresas logicamente possuem seus RHs que, obviamente, meu caro, não pretendem abrir mão de suas metodologias seletivas. Sem querer, descobri também que um famoso senador Pefelista ( hoje demo e sem mandato) é casado com uma mulher que explora esses serviços de RH. Portanto, perceba o lobby fortíssimo que existe naquelas casas para aprovar ou não aprovar tudo aquilo que diga respeito a eles ( e somente eles), mas, o povo que se dane. Encurtando mais ainda essa aventura legislativa, descobri um Juiz do Trabalho, lá do Paraná, Dr. Luciano, que possui um livro jurídico tratando exatamente desse tema das dinâmicas. Com uma grande autoridade jurídica esse magistrado expõe no livro todas as irregularidades praticadas através desses métodos de seleção e recrutamento. Conversamos muito por e-mail e recebi dele a referida obra autografada, inclusive. Por fim , meu caro, caso deseje entrar em contato comigo, ou outros leitores também, meu twitteré@c_o_r_p
    Abraço !

    • Bom, depois do humor, temos um comentário sério sobre o mesmo assunto. E o pior é que você tá certíssimo! Enfim, obrigado por ler e pelo comentário. Um abraço!

  5. Velho…

    Você falou tudo e mais um pouco. Chega a ser grotesco o modo como algumas pessoas se rebaixam nessas dinâmicas, como eles querem entrar no mais profundo das entranhas de quem nós somos e nos moldar para ser esses robozinhos.

    Só acho estranho esse candidato perfeito. Sempre tem algo a mais por trás, algo que às vezes é tão pior quanto a própria dinâmica. Enfim, mano… bom texto. hahahhaha.

    Me senti contemplado!

    Abraços, mano.

  6. O que eu acho pior é que nessas dinâmicas todos os candidatos são muito bem humorados e comunicativos. A gorda do RH é tão burra que nem percebe que todos estão agindo da forma que ensinaram no fantástico no dia anterior. kk

    • HAHAHAAHAHA EXATO! Valeu, deixa nos favoritos mesmo! O blog tá desatualizado pra caralho, mas farei o possível pra manter essa porra ativa!

  7. Dinâmica de grupo e “boi de piranha” é a mesma coisa. Enquanto o circo apresenta o “show” (a “dinâmica”, para os íntimos), nos bastidores aquele candidato com alto “QI” (Quem Indica) já está acertando a contratação.

    • E para completar a desgraça que já não é pouca, a maioria das vagas é preenchida por indicações. É igual tentar vaga para estudar de graça no SENAI de São Paulo, só entra o pobre que é mais inteligente que os peões indicados e que se contenta com o resto das vagas. Isso sim é desumano!


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